Psicologia e educação pública

Fausto Antonio Ramalho Tavares
Mestrando da Faculdade de Educação da USP
São Paulo - Brasil



PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO PÚBLICA
Fausto Antonio Ramalho Tavares


É de se imaginar a surpresa que os professores e alunos da antiga escola Peixoto Gomide, em Itapetininga, na época chamada "Escola Normal Secundária", tiveram em 1914, quando viram descer na estação de trem da cidade o carregamento de aparelhos, importados da Itália, para a formação do novo laboratório que estava sendo organizado numa das salas da escola normal.
Não eram aparelhos quaisquer, desses que imaginamos dever conter qualquer laboratório de ciências exatas. Mas, destinados a constar do "Gabinete de Antropometria e Psicologia Experimental" que o governo mandara instalar nas únicas três escolas normais secundárias do Estado (São Paulo, São Carlos e Itapetininga), esse laboratório era uma estranha novidade na Itapetininga do começo do século.
Recém-inventados pelos psicologistas europeus, os mesmos que andavam pelo mundo espalhando as descobertas da nova ciência da mente, os aparelhos psicométricos (ou "psicofísicos") eram destinados à medição da capacidade visual, auditiva, táctil, gustativa e olfativa, além de também servirem para calcular a fadiga muscular e o tempo de reação de cada pessoa. Além dos aparelhos, a encomenda vinda da Itália ainda trazia alguns modernos testes de memória visual e auditiva, e outros para classificação da personalidade.
Apesar de hoje nos parecer estranha a idéia de que a mente humana possa ser conhecida quase que exclusivamente pelo uso de aparelhos e testes psicométricos, esse procedimento era perfeitamente coerente com a noção de ciência que se tinha na virada do século XIX e com a expectativa dos psicologistas em fazer a psicologia se assemelhar às outras ciências, já bastante desenvolvidas e reconhecidas pela sua precisão e rigor científicos.
Mas é de se perguntar por que um laboratório desse tipo estaria sendo inaugurado numa escola normal, pois que já existiam Faculdades de Medicina no país e diversos hospitais de alienados, locais esses, aos moldes da Psicologia Clínica atual, mais propícios para o desenvolvimento de pesquisas psicológicas.
As respostas a essas questões não são tão fáceis de responder, haja visto que a maior parte dos documentos sobre a existência desse laboratório em Itapetininga (assim como dos seus outros dois congêneres), apesar das poucas décadas que nos separam de sua existência, foram perdidos (ou mesmo destruídos) devido à incapacidade quase crônica de nossas instituições escolares em preservar sua memória.
No entanto, a partir da análise do contexto sócio-cultural que caracterizou a sociedade paulista deste começo de século, de outros inúmeros documentos que ainda estão preservados nas grandes bibliotecas e arquivos públicos e de alguns valiosos estudos históricos publicados recentementemente, é possível traçar algumas hipóteses sobre a origem, as atividades e o significado dos "Gabinetes de Psicologia e Antropologia Experimental".
A primeira pista deve ser encontrada justamente no cenário educacional da época, que vivia um período, desde a proclamação da República, de relativos grandes investimentos públicos, com a construção de novos prédios escolares, criação de órgãos técnicos e administrativos antes inéditos, além, é claro, do aumento significativo do número de vagas para alunos. O históriador Jorge Nagle[1] chega mesmo a caracterizar esse período como o do "entusiasmo" pela educação pública, pois há uma crença generalizada entre os intelectuais e políticos da Primeira República, que, através do ensino público, será possível a construção de um novo espírito cívico e de uma tão sonhada identidade nacional,
Assim, em 1912, quando o Governo do Estado trouxe o psicólogo italiano Ugo Pizzoli para uma estadia de um ano entre nós e o incumbiu de organizar o primeiro laboratório de Psicologia Experimental na Escola "Caetano de Campos", o qual serviu de modelo para o de Itapetininga, isso deve ser entendido como sinal dos esforços oficiais em reestruturar o sistema público de ensino, dando-lhe órgãos mais competentes para suas funções..
Uma segunda pista para respondermos o porque da criação de laboratórios de psicologia nas escolas normais secundárias, vamos encontrar na própria constituição do campo epistemológico da pedagogia, isto é, nas características teóricas peculiares que marcaram a mentalidade dos educadores do começo deste século.
Se ainda hoje restam dúvidas se a Pedagogia é ou não uma ciência, imagine-se então o empenho de nossos antigos educadores, buscando se afirmar no cenário profissional e intelectual da época, e tentando fazer da Pedagogia um conhecimento cientificamente válido, tão merecedora de reconhecimento, respeito e reverência quanto a Física, a Química, ou a Bioloiga.
Assim, a aproximação da Pedagogia com a Psicologia Experimental, pode ser compreendida justamente como uma tentativa dos educadores em aproveitar-se das técnicas, métodos e teorias já elaborados por aquela ciência (e, mau ou bem, reconhecidos mundialmente) para justificar suas próprias práticas e teorias educacionais, ainda em estado de experimentação.
Uma terceira pista para nossa resposta deve ser encontrada nas diversas ideologias que marcaram as discussões e iniciativas de intelectuais e políticos brasileirtos da Primeira República, como o positivismo, o social-darwinismo, e a eugenia[2]. Apesar de suas diferenças, o ponto em comum dessas diversas ideologias é a preocupação com o conhecimento científico das características particulares de cada raça humana, com o objetivo de hierarquizá-las entre inferiores e superiores. Num país mestiço como o Brasil, mal saído de séculos de escravidão, essa mentalidade racista de nossos primeiros legisladores republicanos apontava para a necessidade de se conhecer melhor o desempenho intelectual e físico de cada uma das raças que formam o povo brasileiro.
Nas universidades européias e norte-americanas, as disciplinas que estudavam as raças era chamada de "antropologia cultural" ou "etnologia". Mais do que mera coincidência, os três laboratórios de psicologia das escolas normais secundárias de São Paulo também carregavam em seus normes o rótulo de gabinetes de antropometria, isto é, a parte da antropologia encarregada do levantamento de dados físicos dos indivíduos (como tamanho craniano, capacidade toráxica, cor da pele e dos olhos, estatura, peso, etc).
Portanto, juntando as três espécies de consideraç:ões que fizemos anteriormente - contexto educacional da época, as questões epistemológicas (teóricas) sobre educação, e a mentalidade dominante entre políticos e intelectuais na virada do século XIX - podemos agora fianalmente responder a nossa pergunta.
A criação dos laboratórios de Psicologia e Antropologia Experimental satisfazia dois tipos de exigência: 1) a necessidade sentida pelos administradores e educadores públicos do início do século em aparelhar as escolas com órgãos modernos para sua melhor eficiência, fornecendo apoio técnico competente para o trabalho do professor com seu aluno, e 2) a necessidade de associar as práticas pedagógicas com as técnicas científicas da psicologia, aproveitando-se do status que esta nova ciência já gozava no meio intelectual do ocidente.
Por outro lado, foi na mentalidade positivista e racista dominante no período, que a criação desses laboratórios pôde encontrar eco e ser levada a termo, pois era um desejo manifesto dos primeiros governos paulistas republicanos a reeducação de seu povo, - cablocos, caiçaras, caipiras, imigrantes e ex-escravos, - higienizando. alfabetizando e disciplinando hábitos e costumes, e assim obrigar o povo, pelas "científicas" técnicas de ensino das primeiras letras, a assinar o compromisso coletivo com o abandono do secular estado de penúria a que viveu durante o regime monarquista, contra o qual a república vinha prometer riqueza e modernidade, mas pacto esse nunca cumprido por nenhuma das partes.




Fausto Antonio Ramalho Tavares é prof. da EEPSG Modesto Tavares de Lima e mestrando pela Faculdade de Educação da USP.

[1]NAGLE, Jorge, - Educação e Sociedade Na Primeira República - EPU/EDUSP. SP. 1974.

[2] Sobre esse tema, ver SCHWARCZ, Lilia Moritz - O Espetáculo das Raças (Cientistas, Instituições e Questão Racial no Brasil: 1870 - 1930) - Companhia das Letras. SP. 1993.

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